Opinião por Victor Pinto
A televisão tem uma relação curiosa com a miséria dos trabalhadores: enquanto for suportada em silêncio, não é notícia; quando é audível na rua, fazem-se manchetes e directos intermináveis.
Salários de miséria, rendas impossíveis, contas por pagar, gente que trabalha todos os dias e continua pobre. Anos disto e nunca passa de paisagem. Chama-se “as dificuldades das famílias” e passa-se aos desenvolvimentos das birras do Ronaldo. Não há especiais, não há horas de emissão. É normal os trabalhadores serem explorados.
Um dia, os trabalhadores revoltam-se e de repente há tempo e dinheiro para tudo: enviados especiais ao estrangeiro, comentadores em estúdio, repórteres no terreno, pivôs gravíssimos a explicar ao país o horror de uma montra partida ou de uma pilhagem feita por meia dúzia de parvalhões no meio de milhares. O assunto deixa de ser o que levou aquela gente à rua. O assunto passa a ser a rua.
Quando tudo acaba, fala-se em “regresso à normalidade”. Os explorados voltam para casa, voltam ao trabalho, voltam aos salários e às rendas de sempre, e os exploradores continuam a explorar em paz.
O mais bizarro é que muitos destes comentadores, repórteres e pivôs-estrela trabalham em empresas onde o colega do lado está há anos a recibos verdes, a trabalhar à peça, mal pago, sem estabilidade e sem perspectiva de a ter. Sobre esses não há grandes reportagens, nem debates especiais, nem pivô indignado a perguntar como se vive assim.
A cultura dominante é a cultura da classe dominante, já dizia o velho barbudo. A ordem existente é natural; quem a abala é a ameaça. Nada de novo.
Felizmente, as pessoas não são tão estúpidas como alguns comentadores, repórteres e pivôs-estrela gostariam. E já se sabe a que classe pertencem muitos deles.

