Outubro 2026
D S T Q Q S S
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031
  • A crise não é para todos: quem ganha com o sufoco das famílias?

    A crise não é para todos: quem ganha com o sufoco das famílias?

    Opinião por Paula Marques

    Há uma ideia que se está a instalar perigosamente no discurso público: a de que temos de nos habituar a viver cada vez com menos. Que é normal pagar rendas incomportáveis, ver o preço dos alimentos disparar, gastar uma parte crescente do salário em combustível e esperar meses por uma consulta. Que é normal trabalhar, pagar impostos e cumprir obrigações para, no final do mês, não conseguir viver com dignidade.

    Não é normal. E não é inevitável.

    Por detrás desta narrativa de resignação esconde-se uma escolha política: transferir para as famílias os custos de uma economia que desprotege quem trabalha e continua a oferecer vantagens a quem dispõe de capital, património e poder económico. O problema não é apenas o aumento do custo de vida, mas também a forma injusta como atinge mais uns do que outros e quem acaba por beneficiar com a crise.

    Veja-se o combustível. Perante a subida dos preços, o Governo de Luís Montenegro responde com reduções temporárias do ISP e medidas fiscais, incluindo reduções do IRS. São respostas que podem produzir alguns cêntimos de alívio, mas não garantem que os preços fiquem controlados, nem que as margens de lucro cresçam exponencialmente, nem protejam adequadamente quem tem rendimentos baixos e depende do automóvel para trabalhar.

    Quando o combustível encarece, aumentam também os custos de transporte e a pressão sobre os preços dos alimentos, enquanto o Governo continua a adiar respostas estruturais. Onde estão os transportes públicos regulares nos territórios de baixa densidade? Que instrumentos são utilizados para fiscalizar margens de lucro excessivas e garantir transparência na formação dos preços? A redução de impostos é uma escolha política; também o são a regulação dos mercados, o investimento ferroviário e a criação de alternativas à dependência do automóvel.

    O descontentamento que se tem manifestado nas ruas devia obrigar o Governo a olhar para a realidade das famílias, em vez de procurar desvalorizar a sua indignação.

    Reduzir as mobilizações da última semana a uma narrativa de manipulação política é um insulto a quem se mata a trabalhar e não consegue enfrentar o custo de vida. As acampadas e as manifestações são a expressão visível de um descontentamento que atravessa milhares de famílias que, mesmo sem terem saído à rua, enfrentam as mesmas dificuldades.

    Nestes últimos dias, o Governo teve entradas de leão e saídas de sendeiro. Primeiro, falou de descontentamento artificialmente importado e de egoísmo; depois, procurou transmitir a ideia de que o país estava sereno; finalmente, refugiou-se na vitimização em torno da ação violenta. Mas quem esteve nas ruas do Porto ou de Lisboa pôde testemunhar exigência, combatividade e solidariedade. Estive na Praça D. João I, no Porto, no sábado. Encontrei pessoas que recusam aceitar como inevitável uma vida permanentemente condicionada pela falta de dinheiro.

    A mesma lógica atravessa os serviços públicos. Faltam professores, médicos e outros profissionais; há pessoas que esperam meses por uma consulta e famílias obrigadas a procurar respostas privadas. Quando o Estado não garante uma resposta suficiente, transfere despesas para as famílias. Quem tem dinheiro compra uma alternativa; quem não tem fica à espera. A desigualdade económica transforma-se em desigualdade no acesso a direitos fundamentais.

    É por isso que a conversa sobre o custo de vida não pode continuar reduzida a conselhos de poupança e a apelos à responsabilidade individual. Não estamos perante famílias que precisam de aprender a gerir melhor o orçamento. Estamos perante uma realidade em que as despesas essenciais absorvem uma parte crescente dos rendimentos e em que muitos salários não acompanham o custo de viver.

    Não estamos todos no mesmo barco. Há quem tenha de escolher entre pagar a renda e pôr comida na mesa, entre pôr combustível no carro e pagar as contas. E há quem disponha de património e margem financeira para atravessar a crise sem abdicar do essencial. A narrativa da normalização serve para transformar esta desigualdade numa fatalidade. Se os alimentos encarecem, é a inflação. Se faltam profissionais, é a dificuldade de recrutamento. Se as famílias não conseguem pagar, têm de se adaptar. Assim, as decisões políticas desaparecem da discussão e a responsabilidade é devolvida a quem menos poder tem para alterar a situação.

    Mas os preços, a fiscalidade, o investimento público e a proteção social são também matéria de decisão política. A narrativa neoliberal do Governo continuará: privilegiar incentivos cuja eficácia social não está garantida e insistir nas borlas fiscais aos grandes proprietários. Limitar-se a compensar parcialmente os aumentos sem investir em alternativas estruturais.

    Há alternativas: salários que permitam viver, transportes públicos adequados aos territórios, desenvolvimento económico para além da acumulação do lucro, regulação dos mercados quando falham, serviços públicos com profissionais suficientes e condições de trabalho.

    O que não pode continuar é a exigência permanente de sacrifícios a quem já vive no limite, acompanhada de uma confiança quase automática na capacidade do mercado para resolver problemas que o próprio mercado não resolveu.

    O sufoco das famílias não é uma fatalidade económica. É também o resultado de escolhas que têm responsáveis. A verdadeira questão não é como ensinar as pessoas a viver com menos. É, por que razão aceita o Governo que tantas pessoas trabalhem, paguem impostos e cumpram as suas obrigações sem conseguirem viver com dignidade, enquanto concede vantagens ao investimento sem exigir garantias equivalentes para o interesse público.

    Não temos de nos habituar ao sufoco. Temos de exigir que a política deixe de o administrar e comece, finalmente, a combatê-lo.