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  • Uma crítica que não se leva a sério

    Uma crítica que não se leva a sério

    Opinião por Pedro Teixeira

    Não nos surpreende que o nosso surgimento enquanto força política que quer romper com o statu quo da política portuguesa, e reagir contra o definhamento do espaço político à esquerda, gere reacções das organizações e forças estabelecidas, bem como daqueles que, no espaço público de opinião, dão frequentemente voz aos seus posicionamentos. Este tipo de debate faz parte da ideia e prática de democracia que preconizamos para dentro e para fora.

    Surpreende-nos, contudo, que esta reacção recorra a argumentos frágeis e que dificilmente resistem à mais modesta das inspecções. Centremo-nos apenas em duas aparentes críticas, tecidas contra o Vamos – Democracia Solidária por Ana Bárbara Pedrosa (ABP) na sua crónica do Expresso do dia 24 de Setembro. 

    Primeiro: para demonstrar, presumimos, a esterilidade do surgimento de novos partidos à esquerda, ABP decide convocar uma cronologia da formação de novos partidos desse lado do espectro político. É uma cronologia singular e que nos recorda aquelas fotografias em que procuramos desesperadamente ocultar um objecto inconveniente para o enquadramento idealizado: é que ABP começa em 2009. Porque não começar em 1999? Será que é por ser o ano de fundação do partido sincrético por excelência, o Bloco de Esquerda? E se as fusões partidárias são virtuosas, por que razão remata o fastidioso levantamento  da criação de partidos de esquerda escrevendo, “e ainda meia dúzia de partidos sincréticos”, como quem desdenha o sincretismo político? Não foram no seu tempo o PSR ou a UDP, antes de desaguarem no BE, s”oh mais um partido deesquerda”? Se o esclerosamento e perda de força da esquerda representada no parlamento, como um todo, não constituem motivos suficientes para o impulso tendente à criação de novos projectos políticos, o que constituirá? Porventura o seu eventual desaparecimento do mapa parlamentar – o desejo cada vez menos escondido da direita e da extrema-direita, inspiradas pela composição parlamentar húngara? Poderíamos continuar este levantamento das perplexidades inerentes a este argumento, mas cremos que há uma explicação mais simples: a genealogia partidária à esquerda a la ABP não levanta questões sobre o Vamos, mas sim sobre o entendimento que ela própria terá acerca da essência e propósito dos partidos. 

    Segundo: ABP terá cedido à propensão meramente lúdica de boa parte do comentariado instalado quando sugere que a nossa visão, projecto e propostas políticas pertencem ao reino da animação infantil. Suspeitamos que a autora, impressionada como Peter Pan pelas primeiras palavras que encontrou, se aventurou na construção desta crítica começando pela cornija (sintomaticamente, uma rememoração cinéfila da sua adolescência) e só depois tentou, às apalpadelas e com parcos materiais, decorar os capitéis (a “Disney”), instalar o lintel sobre as colunas, as colunas sobre as bases e, por fim, as bases nos caboucos. Mas sempre com ambas as mãos nos adornos, para que não se perdesse de vista a sua graça. Em vez de um pórtico, montou uma caranguejola de argumentos que indiciam a tendência para moldar o seu pensamento pelas impressões passageiras que leituras diagonais lhe causam. Compreende-se assim que, num movimento estranho, certamente levada pelo carácter ornamental do seu texto, tenha lido na nossa denúncia das “décadas de capitalismo neoliberal conduzido por uma oligarquia distante dos interesses da população” a expressão de ignorância quanto ao desenvolvimento do Estado Social em Portugal, bem como uma rejeição das profundas melhorias nas condições de vida em Portugal desde 1974. É, evidentemente, uma ideia sem qualquer cabimento no nosso entendimento da situação portuguesa e que uma leitura minimanente atenta dos nossos documentos permitiria afastar. Em diversos passos afirmamos e defendemos justamente o legado do 25 de Abril, legado esse construído pela mão de vários partidos e forças sociais, e que não poderia ter sido alcançado sem a criação do Serviço Nacional de Saúde, do alargamento da Escola Pública, da transformação da Segurança Social, como ABP bem aponta. Mas é este mesmo Estado Social que está sob ameaça desde há anos, tendo ficado progressivamente à mercê, reafirmamos, de um capitalismo neoliberal (ordenado, porque as elites económicas sabem que mercados “selvagens” só se implantam com regras e disciplina) que vai minando a qualidade e cobertura dos serviços públicos essenciais, efectivamente empurrando muitos cidadãos para serviços privados e mais caros. Face a um Estado Social com um SNS cada vez mais disfuncional e orientado para as classes de baixos rendimentos, com uma Escola Pública numa competição desfavorável com as escolas privadas, com uma Segurança Social robusta mas continuamente cortejada por interesses privados, com um direito à habitação constitucionalmente consagrado mas nunca verdadeiramente concretizado, ABP decide enxertar uma reconstrução, pedagógica mas trivial, dos inegáveis progressos socio-económicos possibilitados pela expansão do Estado Social. Teria sido mais útil para toda a esquerda se ABP tivesse decidido ler, com detalhe e atenção, as nossas propostas em matérias tão diversas como a Economia, o Trabalho ou o Ambiente. Mas insista-se: a questão que deve mobilizar a esquerda não é apenas defender o que o Estado Social alcançou, mas o que fazer para que ele cumpra o que prometeu, face ao movimento para que ele se torne mais pequeno e mais débil. 

    O que sobra, enfim, é um texto em que, apesar de um vago e acanhado apelo para a unidade na acção à esquerda, a ABP parece conformada não só com o estado da economia e sociedade portuguesas, mas também com o estado da esquerda em Portugal. Ora nós não nos conformamos nem com uma, nem com outra.